Yee Peng, o festival das lanternas Tailandesas & Loy Krathong

Há momentos que ficam “gravados” na nossa retina e nos despertam os melhores sentimentos. Não sabemos explicar bem o porquê, apenas o sentimos e acredito que a sua importância acaba por ser influenciada pelo significado mais profundo que o nosso coração lhe dá.

De toda a nossa viagem pela Tailândia, o momento mais importante foi participar no festival Yee Peng em Chiang Mai. Poderá parecer clichê, mas foi um sonho realizado. Paralelamente ainda tivemos a grande oportunidade de participar no festival Loy Krathong, tornando esta experiência mais intensa.

Já há alguns anos que me sentia muito atraída pelo que lia sobre o festival das lanternas tailandesas e o seu significado, mas achava sempre que nunca passaria de um sonho. Em 2019, quando realizei um roteiro por Singapura, Camboja e Tailândia (ler roteiro aqui), estar presente neste festival acabou por mexer com toda a organização da viagem.

Mas participar é muito mais que “soltar uma lanterna” e para tal é fulcral compreender o seu significado, saber distinguir o verdadeiro festival e descobrir alguns pormenores que podem fazer a diferença pois só ocorre uma vez no ano.

Como recebemos muitas questões sobre este festival e como uma viagem destas, normalmente, é organizada com bastante antecedência, este artigo surge para o ajudar a planear e a vivê-lo com toda a sua verdadeira essência.

Assim, neste artigo ficará a saber em que consiste o festival Yee Peng e o festival Loy Krathong, quando e onde ocorrem e como poderá participar.

Ambos os festivais estão cercados de luzes, animações, fogos de artifícios, mas o seu significado vai mais além. São celebrações budistas que marcam o final de um ciclo e o início de outro em que o povo tailandês agradece pelo ciclo que termina e prepara o corpo e a alma para o novo que começa.

Quando são celebrados

Noite de lua cheia

São um feriado muito especial celebrado pelos tailandeses e para conseguir participar nestes festivais, o primeiro passo é saber quando é que acontecem.

A data do festival Yee Peng coincide com a data do festival Loy Krathong pois ocorrem durante a 12ª lua cheia do ano segundo o calendário Thai (calendário budista que se rege pela lua), logo a data dos festivais não é fixa e muda todos os anos pois é condicionada pela lua cheia.

É nesta noite de lua cheia que os tailandeses acreditam que os rios estão mais cheios e a lua está mais brilhante, o momento perfeito para estarem mais próximos de Buda.

Normalmente, a 12ª lua cheia surge no mês do Novembro, daí ocorrerem quase sempre em Novembro, mudando apenas o dia.

Se pretende participar nestes festivais, já há datas prováveis para os próximos anos, mas tenha em atenção que o dia poderá mudar ligeiramente até alguns meses antes:

  • 2020 –  1 de Novembro
  • 2021 – 19 de Novembro
  • 2022 – 8 de Novembro

Festival Yee Peng

Em tailandês, Yee Peng significa “segunda lua cheia”, pois este festival é comemorado na noite de lua cheia do segundo mês do calendário Lanna que corresponde à 12ª lua cheia do calendário Thai.

O reino Lanna dominava o norte da Tailândia e é considerado o berço da civilização Tailandesa, por isso, o festival Yee Peng apenas é celebrado no norte da Tailândia, mais efusivamente na cidade de Chiang Mai (antiga capital do reino Lanna) e consiste num festival de lanternas.

Nesta noite, o povo tailandês sai à rua com as suas lanternas (Khom Loi) feitas de papel de arroz muito fino e estrutura de bambu, lançando-as ao céu, sob a luz do luar, juntamente com orações e desejos para o novo ano.

Orações e desejos para o céu

Para os tailandeses, o momento de lançar a lanterna para o céu simboliza o abandono de todos os males e infortúnios do ano anterior e a fé de que o desejo pedido a Buda se irá realizar se for uma boa pessoa durante o novo ano.

Manda a tradição que depois de soltar a lanterna deverá segui-la até que se perca de vista e os tailandeses acreditam que se a lanterna desaparecer no céu sem se queimar terão sorte, mas caso se queime poderá significar azar.

Por uma questão de segurança, há zonas específicas para lançar as lanternas pelo risco de incêndio e quando comprar a sua lanterna opte pelas de papel de arroz e bambu por serem mais ecológicas.

Festival Loy Krathong

O festival Loy Krathong trata-se de uma festividade para celebrar o final do período das chuvas (monções) em que os tailandeses agradecem à Deusa da água, Phra Mae Khongkha, pelas chuvas que irrigaram as suas plantações ao longo do ano e preparam a alma para um novo ciclo.

Em tailandês Loy significa flutuar e Krathong é o nome de uma espécie de cesta feita de troncos de bananeira e adornado com folhas de bananeira, flores exóticas, incenso e velas.

Krathongs

Os tailandeses constroem cuidadosamente os seus próprios Krathongs e, na noite da 12ª lua cheia do ano, reúnem-se junto aos rios para lançar estas pequenas cestas flutuantes, oferecendo-as à Deusa da água e purificando a alma pois acreditam que ao lançar os Krathongs nos rios estão a libertar-se de todos os ressentimentos, emoções negativas e má sorte.

Ao contrário do Yee Peng que apenas é celebrado no norte da Tailândia, o Loy Krathong é celebrado em toda a Tailândia, apesar de as festividades serem mais fortes nas cidades Bangkok, Chiang Mai e Sukhothai.

Banca de venda de Krathongs na rua

No dia do festival, encontrará muitos tailandeses pelas ruas a construir e a vender Krathongs. Antes de comprar, tenha em atenção o material de que são feitos pois a base deverá ser de tronco de bananeira por ser biodegradável pois poderá encontrar alguns com placas de esferovite que é altamente poluente nos rios.

Como participar

Festival tradicional nas ruas

Para participar não terá que pagar nada, apenas saber os locais em que ocorrem as cerimónias mais importantes e compartilhar este momento de fé com a população tailandesa. De seguida, explicarei como viver o festival Yee Peng e o festival Loy Krathong na cidade de Chiang Mai, de acordo com a experiência que tivemos.

Mas em primeiro lugar, é importante entender que nem tudo o que lemos e vemos na internet corresponde à realidade do festival Yee Peng (escrito muitas vezes como Yi Peng).

Há uma grande particularidade neste festival, é que hoje em dia, em Chiang Mai existem várias derivações do festival Yee Peng. O verdadeiro festival tradicional, que é celebrado pela população tailandesa e organizado por grupos budistas é totalmente gratuito e ocorre no centro da cidade.

No entanto, com o crescimento do interesse dos turistas por este festival, de há 8 anos para cá, paralelamente foram criados outros festivais privados que ocorrem nos arredores de Chiang Mai, cuja entrada é paga e os seus bilhetes têm encarecido ano após ano.

Então é necessário que entenda que as fotos mais espetaculares que circulam pela internet, em que vê milhares de lanternas no céu, são fotos de um evento privado em que os turistas lançam as lanternas todas ao mesmo tempo.

Apesar de parecer um conto de fadas, pelos vários relatos que li, este tipo de festival privado não passa disso mesmo, um imenso aglomerado de turistas (cerca de 3000 por espaço), num cenário todo criado e apenas para lançar a lanterna e conseguir uma foto incrível num momento que dura poucos minutos.

Estes festivais privados seguem quase todos os mesmos conceitos, incluindo jantar e algumas animações. Para ter uma noção, aqui ficam três dos eventos privados mais populares e o preço dos seus bilhetes:

  • Yee Peng Lanna International (Universidade Mae Jo) – entre 5500 a 12000 THB (150€ a 342€);
  • Yee Peng Doi Saket – entre 4000 a 5000 THB (115€ a 140€);
  • Chiang Mai CAD Khomloy Sky Lanterns Festival (Air Sport Farm) – entre 4600 a 6400 THB (134€ a 186€).

Como pode ver, os bilhetes não são nada baratos, no entanto, estes eventos esgotam muito facilmente. Mas será que uma foto é o verdadeiro sentido deste festival? Para mim, não! E depois da experiência fantástica que tive no festival tradicional ainda fiquei com mais certezas.

A nossa foto publicada no site Thailand Magazine

Nada contra a quem opta por participar nestes festivais privados, e se realmente o preço alto dos bilhetes não for um problema, o momento de lançar a lanterna ao céu no meio de tantos turistas e lanternas deve ser único, mas acredito que a verdadeira essência do festival acaba por se perder num momento tão programado. Será que no meio de milhares de lanternas conseguirá seguir o trajeto da sua e cumprir a tradição?

Desengane-se se for com a expectativa de que na rua conseguirá fotos assim pois o festival é vivido de forma espontânea e as pessoas soltam as suas lanternas quando querem e não sob o comando de um apito.

Festival tradicional na rua

Não tinha grandes expectativas quanto a isso, mas fui muito surpreendida de forma positiva e partilho de seguida a nossa experiência.

Yee Peng e Loy Krathong em Chiang Mai

Lanternas & Krathongs

É então na pequena cidade de Chiang Mai que a magia acontece. E por magia entenda-se a união do céu e das águas pois é aqui que terá a oportunidade de participar nos dois festivais ao mesmo tempo (Loy Krathong une-se ao Yee Peng) deixando flutuar a sua lanterna pelo céu e o seu krathong pela água dos rios.

Família nos festivais em Chiang Mai

Durante a época dos festivais, mesmo nos dias que os antecedem, a cidade veste-se de cores e brilhos, as ruas ficam mais alegres e os tailandeses decoram as suas casas, ruas e templos a preceito enfeitando-os com luzes, bandeiras e as suas características lanternas Lanna. Há concursos de beleza, desfiles de carros alegóricos, espetáculos de dança tailandesa, fogos de artifício e muita música.

Aconselho, se possível, a reservar no mínimo três dias na cidade. Em 2019, os festivais aconteceram no dia 11 de Novembro, mas nós chegámos a Chiang Mai no dia 10 de Novembro o que nos permitiu conhecer um pouco a cidade e os locais onde decorreriam as cerimónias e os festejos no dia seguinte. Nesse dia, já se sentia bem a vibração pelas ruas cheias de turistas e ainda assistimos a um dos concursos de beleza que estão ligados ao festival Loy Krathong.

Concurso de beleza

Aqui ficam os locais onde poderá participar junto com o povo tailandês:

1.Templo Wat Lok Moli

Templo Wat Lok Moli repleto de lanternas Lanna

No grande dia do festival, 11 de Novembro, a meio da tarde fomos visitar o templo Wat Lok Moli onde tivemos o primeiro contacto com as celebrações destes festivais.

No interior do templo, um grupo de monges e tailandeses faziam as suas orações e no exterior, o espaço envolvente estava bem decorado e repleto de coloridas lanternas lanna que são feitas de papel.

Atrás deste templo, alguns monges oferecem lanternas Lanna e apenas demos uma doação para o templo como agradecimento. Escolhemos a nossa lanterna, escrevemos os nossos desejos e penduramos junto de muitas outras lanternas coloridas espalhadas em cordas e iluminadas pelo tom quente do pôr-do-sol que se aproximava.

2. Templo Wat Phantao

Pagode no templo Wat Phantao

Regressámos ao hotel para deixar algumas coisas e fomos a pé para o templo Wat Phantao para assistirmos a uma das cerimónias mais aguardadas, realizada por um grupo de monges num “encontro” espiritual com Buda entre orações, rezas, ofertas, cânticos e momentos de silêncio.

Chegada à cerimónia

A cerimónia neste templo é gratuita e começa às 19h, mas fomos mais cedo pois fica repleto de visitantes. Ainda assim, não foi fácil conseguirmos um bom lugar para ver bem pois já estava a ficar cheio.

Visitantes a prepararem-se para as celebrações
Antes de começar a cerimónia, os monges preparam o local espalhando muitas velas e acendendo-as.
Início das orações, direcionados para Buda
Momento de oração, direcionados para os visitantes

No final, finalizam a cerimónia com a libertação das suas lanternas para o céu, no entanto, como é um local com muitas árvores não é permitido soltar livremente as lanternas, então estas são controladas com um fio para depois as trazerem de volta. Foi uma cerimónia muito bonita e de introspeção.

3. Tha Phae Gate

Portão da cidade velha, iluminado pelas lanternas Lanna e pela lua cheia

No final da cerimónia budista, caminhámos em direção à Tha Phae Gate, iluminados pelo brilho da lua cheia, e pelo caminho comprámos o nosso Krathong (30 baht – 1,10€) numa das inúmeras bancas de rua que vendem Krathongs nessa noite.

O nosso Krathong

É na Tha Phae Gate, um dos portões da cidade velha, que existe muita animação, iluminação e barraquinhas de comida com grandes concentrações de pessoas.

4. Nawarat Bridge

Nawarat bridge

Mas o nosso objetivo era chegar à ponte Nawarat (Nawarat Bridge), o local mais concorrido para a libertação das lanternas.

Percorremos a rua que liga a Tha Phae Gate à ponte Nawarat (Thapae Rd) onde comprámos a nossa lanterna (50 baht – 1,50€) e um pouco antes de chegarmos à ponte, foi o momento de vivermos o nosso Yee Peng.

Thapae Rd

No meio da rua, fomos abordados por um grupo de pessoas que nos perguntou se estávamos interessados em lançar lanternas com eles. Tinham comprado várias lanternas e estavam a oferecer a algumas pessoas para lançarmos todos juntos. Aceitamos e rodeamo-nos de estranhos, mas unidos pelo mesmo sentimento, partilhando a alegria de estarmos a viver aquela noite.

Mais tarde, juntamente com os nossos primos, lançamos as nossas lanternas e libertamos os nossos desejos mais profundos para o céu, limpando a alma de todos os sentimentos negativos e seguindo a nossa lanterna que desapareceu no céu sem se queimar. Foi assim que vivemos o Yee Peng e é assim que o queremos para sempre recordar.

Nesta rua, um pouco antes de chegar à ponte Nawarat, poderá ser o melhor local para lançar a sua lanterna e fotografar pois estará rodeado de pessoas a lançar lanternas e terá como pano de fundo as imensas lanternas lançadas pelas pessoas que estão na ponte.

Faltava o último momento da noite, viver o Loy Krathong. Junto à ponte Nawarat, nas margens do rio Ping, acendemos a vela do nosso Krathong, queimámos o incenso e de mãos dadas deixámos que fosse levado pela corrente das águas do rio, assim como, tudo aquilo que tornava mais pesado o nosso coração e a nossa alma. Embora com mais pessoas no local, o silêncio do momento era mais forte apenas com os foguetes de fundo.

E foi neste momento que o céu se uniu às águas para nós e os nossos olhos brilhavam com as imensas lanternas que flutuavam no céu e os pontos de luz que flutuavam no rio.

A noite terminou com um jantar num mercado de comida de rua junto à ponte Nawarat e a vaguear pelas ruas da cidade a contemplar o brilho das lanternas.

No dia seguinte, 12 de Novembro, as celebrações dos festivais terminaram com o desfile de carros alegóricos e música que começou pelas 19horas junto à Tha Phae Gate, onde nos perdemos por algumas das suas iluminações.

Lanternas na Tha Phae Gate

Relativamente à quantidade de turistas, é verdade que a cidade fica bem saturada, mas não me criou nenhum incómodo nem me senti sufocada. Os únicos momentos mais “apertados” foram durante a cerimónia no templo Wat Phantao e durante o desfile, de resto foi pacífico visitar a cidade.

Dicas:

  • reserve o alojamento com bastante antecedência pois esgotam rapidamente com os inúmeros turistas, mas também com tailandeses de outras cidades que se deslocam para Chiang Mai e, por vezes, reservam de um ano para o outro;
  • dê preferência aos hotéis mais próximos dos locais das cerimónias pois poderá deslocar-se a pé e evita a utilização de transportes cujos preços estão mais altos nesta época. Reservamos o alojamento no hotel Lamphu House Chiang Mai, muito bem localizado numa rua perpendicular à rua do templo Wat Phantao e muito próximo da Tha Phae Gate;
  • se pretende reservar uma mota, faça-o logo que possível pois a sua procura é muito elevada:
  • se reservar uma mota, tenha em consideração que, durante os dias dos festivais a polícia realiza várias operações STOP e exige uma carta de condução internacional e, caso não a tenha, terá de pagar uma licença especial que custa 500baht (+/- 15€). É uma boa forma de cobrar dinheiro aos turistas;
  • utilize roupas adequadas nos templos e cerimónias mais religiosas;
  • respeite a cultura e crenças;
  • o lançamento de lanternas em locais proibidos está sujeito a penalização, segundo a lei tailandesa.

Como disse inicialmente, não fui com as expectativas muito elevadas. A vontade de participar prendeu-se mais ao significado destes festivais e achei que não teria tanta adesão nas ruas. Mas estava enganada. Foi muito melhor do que imaginei e foi nas ruas da cidade que tivemos mesmo a noção de que, apesar de ter muitos turistas, os tailandeses também vivem a sério estes festivais. Por isso, não é necessário pagar para viver uma grande experiência.

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